A participação dos fiéis no Santo Sacrifício da Missa

Gratia Domini Iesu Christi et caritas Dei et communicatio Sancti Spiritus cum omnibus vobis (2Cor XIII, 13).

Introdução

Caríssimos irmãos que nos acompanham neste blog, através do qual buscamos estudar e divulgar a Santa Liturgia Romana na sua Forma extraordinária, conforme o Motu Proprio Summorum Pontificum de S. S. Bento XVI. Liturgia esta que exala sacralidade e é fonte de santificação para homens e mulheres.

Hoje em dia muito se fala acerca da participação frutuosa dos fiéis na Sagrada Liturgia conforme nos coloca o documento conciliar Sacrosanctum Concilium:É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão, «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido» (1 Ped. 2,9; cfr. 2, 4-5)”.

Mas antes de entendermos o que seria essa “devida participação” dos fiéis na liturgia, e mais especificamente no Santo Sacrifício Eucarístico, precisamos compreender a confusão que se faz hoje, principalmente entre teólogos e liturgistas, acerca da distinção entre “sacerdócio comum” e “sacerdócio ministerial”.

 

Distinção entre Sacerdócio Comum e Sacerdócio Ministerial

Sobre isto, devemos entender que o único Sacerdote da Nova e Eterna Aliança é Jesus Cristo, Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec. Sobre isto, nos falam o salmo 110: “O Senhor jurou e jamais desmentirá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” e o autor da Carta aos Hebreus: “Ele, porém, visto que permanece para a eternidade, possui sacerdócio imutável” (Hb VII, 24).

É Ele que se oferece no altar da cruz como Sacerdote e Vítima. E para perpetuar este Santo Sacrifício pelos séculos até seu retorno glorioso, Nosso Senhor instituiu o sacramento da Ordem, pelo qual fez de seus apóstolos, e daqueles aos quais estes lhes impuserem as mãos, participantes no seu eterno sacerdócio. Por outro lado, pelo sacramento do batismo, quando somos incorporados ao Corpo Místico de Cristo e tornamo-nos filhos da promessa, como nos diz Santo Agostinho, também passamos a participar desse sacerdócio.

Portanto, segundo o ensinamento da Santa Igreja, cuja fonte é a própria Escritura e Tradição, existem dois tipos de sacerdócio, ou melhor, duas formas de se participar do único e eterno sacerdócio de Cristo, Nosso Senhor. A primeira forma é pelo batismo, o chamado sacerdócio comum dos fiéis. A segunda forma é através da Ordem, o chamado sacerdócio ministerial. Sobre isto nos fala o Concílio Vaticano II:

“O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo às vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa.” (Lumen Gentium, 10).

Em outras palavras, o próprio concílio, embasado na Tradição, confessa a diferença entre os dois sacerdócios. Embora ordenam-se mutuamente um ao outro em virtude da Igreja ser o Corpo Místico de Cristo, o concílio reconhece que existe uma diferença de caráter “essencial” entre as duas formas de participação no sacerdócio de Cristo. Não se trata de uma diferença apenas em grau, mas uma diferença essencial. Um não pode ser “confundido” com o outro, o que hoje, infelizmente, acontece demasiadamente.

Vejamos este belíssimo texto da Carta encíclica Mediator Dei de S. S. Pio XII: Com efeito, como o lavacro do batismo distingue os cristãos e os separa dos outros que não foram lavados na água purificadora e não são membros de Cristo, assim o sacramento da ordem distingue os sacerdotes de todos os outros cristãos não consagrados, porque somente eles, por vocação sobrenatural, foram introduzidos no augusto ministério que os destina aos sagrados altares e os constituem instrumentos divinos por meio dos quais se participa da vida sobrenatural com o corpo místico de Jesus Cristo.” (M. D. 38).

Logo, esta “confusão” que certas pessoas fazem, e que corrobora para uma má vivência litúrgica e eucarística, surge a partir de péssimas e infelizes interpretações dos textos conciliares. Os próprios textos do Magistério mostram qual é a Verdade ensinada pela Igreja através dos tempos. Não seria agora, vinte séculos após a encarnação do Verbo de Deus, que a verdade simplesmente “apareceria”, não é? Teria errado a Igreja durante dois mil anos de história? Negaríamos a presença do Espírito de Deus na Igreja, quando nos diz Nosso Senhor: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará na verdade plena” (Jo XVI, 13).

 

Correta participação na missa do sacerdócio comum

Aqueles que são chamados por Deus para tornarem-se sacerdotes ministeriais por graça divina, realizam o Santo Sacrifício fazendo as vezes de Cristo. E como nos explica S. S. Beato João Paulo II em sua Ecclesia de Eucharistia, “In persona” refere-se a uma específica e sacramental identificação com o Sumo e Eterno Sacerdote, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Ou seja, “na economia de salvação escolhida por Cristo, o ministério dos sacerdotes que receberam o sacramento da Ordem manifesta que a Eucaristia, por eles celebrada, é um dom que supera radicalmente o poder da assembleia e, em todo o caso, é insubstituível para ligar validamente a consagração eucarística ao sacrifício da cruz e à Última Ceia.” (E. E. 29).

A assembleia, portanto, mesmo sendo sacerdotal pelo batismo, não possui o “caráter sacerdotal específico” (do qual apenas gozam os bispos e presbíteros) para “tornar presente” o sacrifício da cruz na celebração da eucaristia.

Enquanto o sacerdote (ministerial) oferece ao Pai In Persona Christi Capitis, a Vítima imaculada pela ação do Espírito Santo, os fiéis são chamados a “oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada” (Sacrosanctum Concilium 48). “Oferecer juntamente com o sacerdote”, não quer dizer que a assembleia realiza o sacrifício visível tal como o sacerdote ministerial, mas quer dizer que a assembleia litúrgica e eucarística deve unir-se ao sacerdote, seja nos votos de louvor de impetração (súplica) e expiação (perdão dos pecados), seja na ação de graças. Todos os fiéis, como sacerdotes pelo batismo, devem aprender a oferecer-se como hóstias vivas, santas, e agradáveis a Deus (Lumen Gentium 10).

Todos os fiéis devem ter consciência que a celebração da Santa Missa é o coração da vida espiritual da Igreja. Toda espiritualidade e devoções devem estar embasadas e direcionadas para a Eucaristia, Sacrifício (através do qual a Vítima pascal é imolada de forma incruenta para a salvação do mundo) e Sacramento (através do qual o Banquete sagrado do Corpo e Sangue do Senhor é servido para a remissão de nossos inúmeros pecados e como remédio de nossas almas, como nos afirma S. Tomás de Aquino).

Justamente por isso devemos nutrir uma piedade eucarística, conhecendo o rito que edifica a Igreja, acompanhando a Missa enquanto o sacerdote reza, e com o coração ofertado no altar, entregando nossa vida e nossa existência ao Cordeiro de Deus, como fez Nossa Senhora, Mulher Eucarística que se doou por inteiro à vontade de Deus.

In Christi Pacem

Sem. Leonardo Silva

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